Não existe clima institucional para a votação das reformas trabalhista e previdenciária no Congresso Nacional, foi o que sinalizaram os deputados e senadores, um dia depois de ter explodido uma tremenda bomba no Palácio do Planalto, com denúncias feitas contra o presidente Michel Temer e que deixou a nação estarrecida. Os relatores, deputado Arthur Maia (PPS-BA), no caso da previdenciária; e o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), da trabalhista, concordam com seus pares e anunciaram a suspensão das reformas temporariamente.

"A prioridade neste momento é resolver a crise institucional devastadora que se instalou sobre o governo. Assim como o mercado financeiro, o Congresso padece da falta de credibilidade. Se a operação Lava Jato, com os seus três anos de investigações, já causava medo e apreensões nos congressistas, imaginem agora em que o chefe supremo da nação foi pego com a mão na botija. É certo que a investigação em cima do presidente vai ajudar a desenrolar ainda mais esse carretel de corrupção que se instalou no Brasil e, que a cada momento, revela novas falcatruas do mundo político brasileiro. Com base nesse clima de pavor, é natural que deputados e senadores esqueçam as reformas e mirem somente no desenrolar das próximas delações. Seria mais ou menos como a copa do mundo, todos param para ver o jogo e qual vai ser o resultado. Acredita-se, que as reformas só retornarão a pauta - se antes não forem sepultadas para sempre - em um próximo governo legítimo e não tampão, se assim houver credibilidade e acordo com a sociedade para tramitação e votação em plenário. Enquanto isso o país vai ficar engessado e a economia patinando sem sair do lugar. O que acaba afugentando os investimentos e aumentando o desemprego", diz Canindé Pegado, presidente do SINACB.

A crise política causou a paralisação das reformas da Previdência e trabalhista. A suspensão da tramitação das duas propostas, consideradas essenciais à estabilidade econômica pelo mercado financeiro, foi anunciada ontem, em momentos diferentes, pelos respectivos relatores: o deputado Arthur Maia (PPS-BA), no caso da previdenciária; e o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), da trabalhista.

Logo cedo, Ferraço disse ao GLOBO que, diante da crise institucional vivida pelo governo, a tramitação do projeto no Senado está suspensa temporariamente. Antes da divulgação de que o presidente Temer teria sido gravado dando aval à compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, a ideia era apresentar o relatório na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) semana que vem.

— A crise institucional é devastadora. Não tem condição de manutenção do calendário. Primeiro precisamos resolver a crise institucional. Tudo suspenso! — disse o senador, que esperava a votação no plenário até a segunda quinzena de junho.

 

No início da noite de ontem, foi a vez de Arthur Maia divulgar uma nota dizendo que não há mais espaço para aprovar a proposta da Previdência no Congresso. Segundo ele, é hora de “arrumar a casa e esclarecer os fatos obscuros”.

“De ontem para cá, a partir das denúncias que surgiram contra o presidente da República, passamos a viver um período crítico, de incertezas (...) Certamente não há espaço para avançarmos com a reforma da Previdência no Congresso Nacional”, disse o deputado.

— Sem dúvida o cronograma ficou muito prejudicado. A gente já estava apertado com o número de votos — admitiu o deputado Beto Mansur (PRB-SP), que está auxiliando o governo na comunicação da Previdência.

 

VOTAÇÃO DA PREVIDÊNCIA 'PERDEU EMBALO', DIZ MINISTRO

O ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, admitiu que a turbulência que atingiu o governo fez a votação da proposta da reforma da Previdência “perder o embalo”, mas disse que foram sacrificados apenas poucos dias de articulação junto aos deputados. Ele acredita que as delações envolvendo o presidente Michel Temer não vão atrapalhar de forma substancial o cronograma das reformas no Congresso.

Já em relação à reforma trabalhista, que tramita no Senado, o ministro afirmou que sentiu disposição dos parlamentares, em conversas ao longo do dia, de manter o cronograma previsto pelo governo:

— Na Previdência, perdemos uns três dias de articulação. Admito que perdeu aquele embalo formidável que estava, mas, na trabalhista, vejo o empenho dos senadores em manter o prazo.

 

A equipe econômica avalia que as turbulências que afetaram o mercado financeiro ontem tendem a se dissipar nos próximos dias. Integrantes do governo afirmaram que a disparada do dólar e o aumento das taxas de juros por causa dos rumores de que o presidente Temer poderia renunciar provocaram um impacto de curto prazo na economia, mas tudo tende a voltar ao normal.

— Passamos da fase em que a economia entra em crise por causa da política — comentou um integrante da equipe econômica.

 

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