Com o acirramento da crise instalada no Brasil, está cada vez mais difícil conseguir algum aumento real nas negociações coletivas a cada ano que passa. A inflação alta somada ao desemprego crescente coloca em desvantagem o trabalhador que acaba não conseguindo sequer repor as perdas inflacionárias do período. A prova disso é que no primeiro semestre deste ano, quase 40% das negociações coletivas resultaram em reajuste abaixo da inflação, revela o Dieese.

"É uma situação jamais vivida em nosso país. Na hora da negociação quem mais perde é o trabalhador que acaba sendo prejudicado pelos reajustes oferecidos pelo patrão, pois existe mão de obra sobrando no mercado, o que acaba beneficiando o empresariado. Além disso, temos que enfrentar as pressões que surgem de todos os lados para retirar direitos adquiridos dos trabalhadores, com o objetivo claro de fragilizar a categoria e obter lucros ainda maiores. Estamos de olho e vamos seguir lutando para preservar salários e os direitos dos trabalhadores", enfatiza Canindé Pegado, presidente do SINCAB.

As altas taxas de desemprego e inflação colocaram os trabalhadores em forte de desvantagem para negociar seus reajustes salariais no primeiro semestre deste ano.

Quase 40% das negociações coletivas resultaram em reajustes abaixo da inflação, segundo levantamento do Dieese. Como base de comparação, ao fim do primeiro semestre de 2014, quando a crise ainda não havia impactado com força o mercado de trabalho, era de apenas 3% a média dos reajustes que ficavam inferiores ao INPC. No ano passado, o índice havia subido para 15%.

O volume de negociações que resultaram em ganhos reais para os trabalhadores, por sua vez, caiu. Só 24% conseguiram elevar o poder aquisitivo de seus salários e 37% empataram as correções com a inflação.

A variação real média dos reajustes no primeiro semestre ficou 0,5% abaixo da inflação. Trata-se do pior desempenho das negociações desde o primeiro semestre de 2003, segundo o Dieese.

José Silvestre, coordenador da entidade, afirma que em 2015 já havia sinais da trajetória negativa, mas as dificuldades agora se aprofundam.

O acompanhamento realizado pelo Dieese com mais de 300 unidades de negociação da indústria, do comércio e dos serviços mostra que, entre 2012 e o início de 2015, preservou-se uma regularidade no comportamento das negociações salariais, com uma prevalência das correções acima do INPC e raros casos de reajustes inferiores.

A partir de fevereiro de 2015, a proporção de reajustes inferiores ou empatados com a inflação começou a subir, enquanto os ganhos reais diminuíram.

O setor de serviços teve a maior proporção de reajustes abaixo do INPC (44%). Na indústria (33%) e no comércio (39%), o volume de perdas reais foi menor.

 

NEGOCIAÇÃO DURA

"A aceleração inflacionária e o aumento do desemprego corroem o salário e aprofundam a queda da massa salarial. Isso tudo configura um cenário mais difícil para a negociação", afirma Oliveira.

Miguel Torres, vice-presidente da Força Sindical, diz que, além da dificuldade de corrigir salários, os sindicatos estão tendo de combater a "pressão para tirar direitos da Constituição", na esteira das discussões sobre a pretensão do atual governo de realizar reforma trabalhista.

Regina Madalozzo, professora do Insper, diz que o desemprego é um dos grandes motivos pelos quais as negociações salariais estão difíceis. "Há uma correlação: se há mais desempregados dispostos a serem contratados por menos, o salário se achata."

Outra conseqüência do endurecimento das negociações para o lado dos trabalhadores é o parcelamento dos reajustes. No primeiro semestre, mais de 25% foram pagos em duas ou mais parcelas. No primeiro semestre de 2014, essa índice rondava os 5%.